A SAGA DOS ESPANHÓIS NO BRASIL
Esta página divide-se em três partes, todas destinadas a coletar, armazenar e
divulgar informações sobre a participação dos espanhóis na formação social,
econômica e política do Brasil. Na primeira parte serão inseridos textos e
imagens sobre personalidades e eventos relevantes da história nacional. A
segunda parte será dedicada ao armazenamento de textos e imagens relacionados a
regiões, cidades e localidades em que espanhóis e seus descendentes, desde a
fase colonial até hoje, tenham tido um papel marcante na fundação ou no
desenvolvimento. A terceira parte será destinada ao armazenamento de imagens,
dados e textos, especialmente depoimentos, através dos quais imigrantes
espanhóis e seus descendentes possam narrar experiências pessoais e familiares.
MOTIVAÇÃO
A historiografia oficial quase sempre desprezou e pouco registrou qualquer
informação sobre a participação de não lusitanos, a não ser como aliados
eventuais, nas grandes empresas do “descobrimento” e povoamento do território
brasileiro.
Esse desprezo dirigiu-se especialmente aos espanhóis, justamente a nacionalidade
que, depois dos portugueses, foi a mais presente em todas essas empresas.
Exemplo disso é o livro “A História do Brasil”, de 1.883, no qual “Capistrano de
Abreu disse que os espanhóis não deixaram nenhum rastro de suas viagens do final
do século XV. E comentou, até mesmo, que eles não tiveram nenhuma importância na
formação histórica brasileira, ou a tiveram menor do que a dos franceses, por
exemplo”.(1)
Ocorre que os Reinos de Espanha e Portugal, desde os primeiros anos dos
quinhentos, disputaram o domínio de toda a região situada além da imaginária
linha de Tordesilhas e ao sul donde hoje fica a cidade de Cananéia (mais ou
menos) e, sobretudo, da região do Rio da Prata, inicialmente conhecido como Rio
de Solis.
Deve ter parecido aos historiadores de antanho que, omitindo e até negando a
participação de outros povos nessas grandes empresas, estivessem prestando um
serviço à afirmação da nacionalidade. Algo como se da afirmação simbólica da
exclusividade e absoluta hegemonia lusitana dependesse a própria existência da
nação. É verdade que, considerada a época em que os próprios fatos ocorreram e o
tempo em que alguns registros foram realizados, razões geopolíticas ponderáveis
explicam a distorção da verdade. A persistência dessa postura na historiografia
até meados do século XX é que configurou uma rematada bobagem. Pior, só serviu
para gerar preconceitos inúteis e prejudiciais à integração latino-americana.
Hoje, porém, estudos e pesquisas esforçam-se para derrubar as paredes erigidas
pela historiografia oficial, cujo propósito foi defender a exclusividade lusa na
formação original do povo brasileiro.
A verdade é que a história da América Portuguesa e a da América Espanhola, tanto
quanto a história de Espanha e Portugal na Europa, sempre estiveram
visceralmente ligadas.
Nos anos 30 do século XVI, época em que se deu efetivo início à ocupação do
território brasileiro, as casas reais de Portugal e Espanha partilhavam o mesmo
ambiente doméstico.
O Imperador Carlos V, rei da Espanha, era casado com Isabel, irmã de D.João III,
rei de Portugal. D. João, por seu lado, era casado com Catarina, irmã de Carlos
V. Ou seja, os dois reis eram casados um com a irmã do outro.
Pompeu de Toledo afirma que “A rivalidade exercia-se em família, portanto. Esse
entrelaçamento familiar em que mal disfarçava o desejo, de uma parte como de
outra, de unir as coroas da península Ibérica, algo com que cada um estava
pronto a concordar desde que, claro, ocorresse sob sua própria hegemonia, tinha
como conseqüência o fato de que as brigas se davam dentro da maior intimidade”.
(2)
Foi dentro desse contexto, por exemplo, que D. João III planejou e pôs em
execução a missão de Martim Afonso de Souza, a qual, ao contrário do que
muitos livros de história já disseram para nossas crianças, jamais teve por
objetivo exclusivo a ocupação da Capitania de São Vicente. O objetivo da
expedição era ir muito além, alcançar o Rio da Prata e ali fincar a bandeira
lusa.
As relações entre as famílias reais são curiosas e importantes para a
compreensão de como as coisas se passavam e se resolviam institucionalmente
naqueles tempos entre Portugal e Espanha. Não são suficientes, porém, para
compreender como os povos ibéricos interagiam e se inseriam nesse contexto
político.
As histórias dos vários personagens que comporão o presente trabalho nos
ajudarão a compreender essas relações, pois o interagir entre os súditos das
duas coroas, desde a alta nobreza até o mais humilde marinheiro, foi constante
nessa época de explorações e de busca pelo controle de territórios. Isso porque,
como explica Pompeu de Toledo na obra citada, “A concorrência entre os dois
reinos desdobrava-se numa disputa pelo material humano disponível.
Um queria roubar do outro os pilotos mais exímios, os cartógrafos, os melhores
conhecedores dos novos mundos”. Essa disputa, determinada pela escassez de
técnicos preparados e de mão de obra capaz de suprir as necessidades de uma
viagem transoceânica, explicam a razão pela qual “as nacionalidades se
misturavam, a bordo dos navios, apesar da rivalidade entre as potências
ibéricas”. (3)
Essa rivalidade perdurou e está na origem do quase absoluto silêncio da
historiografia oficial sobre a participação espanhola na formação do Brasil.
A historiadora Aracy A. Amaral, ao realizar estudo sobre os monumentos que
restaram do século XVII em São Paulo, deparou-se com “lacunas irremediáveis na
nossa documentação histórica da época” e cogitou ser essa situação resultante de
preconceitos “como foi o caso de se ter mantido na obscuridade até muito
recentemente a densidade da contribuição espanhola no passado paulista”.
Diz ainda essa autora que «Deixando claro o menosprezo tradicional pela
contribuição espanhola, Nilo García (4) afirma que “O homem das bandeiras é
fruto original da união dos três elementos apontados (portugueses, índios e
espanhóis)”, sendo a região e as condições locais “o habitat em que se forjou” o
bandeirismo, tornando realidade a “singularidade do homem e da empresa”.
Mencionando ainda o “quase abandono a que foi relegada a contribuição do
espanhol”, este historiador esclarece que “excetuados alguns respingos, neste ou
naquele autor, parece que apenas dois fixaram com clareza o influxo da gente de
Castela: Gilberto Freire e Cassiano Ricardo”. (5)
Não se tem a pretensão, com o presente trabalho, de resgatar cinco séculos de
silêncio. O objetivo é simplesmente o de reunir, quase como um catálogo de
referência, o maior número possível de informações sobre essa contribuição. Não
é um trabalho científico e nem se pretende acadêmico, traduzindo, apenas, o
anseio de contribuir para a divulgação do tema. De outro lado, embora não se
ignore a existência de acalorados debates sobre as formas como esses personagens
desempenharam seus papéis, alguns dizendo-os heróis e outros apontando-os como
vilões, não tem se aqui a pretensão de aprofundar tais discussões. Recomendamos,
porém, a leitura de
ATELIÊ DE HISTÓRIA: BANDEIRANTES: HERÓIS OU VILÕES e de
Os Jesuítas no Brasil para que se tenha sempre presente que existem
"versões" históricas e "fatos" históricos, quase nem sempre fáceis de
distinguir.
Na terceira parte, denominada MUSEU DA PESSOA, pretende-se reunir
informações sobre os imigrantes espanhóis que chegaram ao Brasil a partir das
duas últimas décadas do século XIX e, tanto quanto possível, desvendar seus
destinos, formas de inserção sócio-econômica e, enfim, procurar aferir a
contribuição que eles e seus descendentes deram na construção da sociedade
brasileira contemporânea.